Dominique Puzzi, modelo e cantora.
“Minha mãe (a atriz Nicole Puzzi) estava com síndrome do pânico e depressão profunda. Com 14 anos, eu cuidava dela. Estressada com a situação, resolvi ir a um spa para descansar, mas perdi três quilos. Recebi elogios, que soaram como um troféu. Pensei: ‘Nossa, vou emagrecer mais um pouquinho’. Bom, fui anoréxica durante um ano, cheguei a 48 quilos com 1,76 metro de altura. Comia no máximo 300 calorias por dia: uma colher de arroz integral, uma de milho refogado e bebia uma mistura de chás diurético, laxativo e digestivo. O correto era tomar três xícaras por dia, mas eu ingeria mais de 2 litros. Amigos falavam para eu largar essa paranóia, mas não me via magra. Comprava roupas com manequins cada vez menores para estabelecer metas. Enquanto no Rio minhas amigas estavam na praia, eu passava gel redutor, vestia uma malha molhada para dar choque térmico e me cobria com mais três edredons. Ficava no apartamento passando mal para emagrecer. Não fazia ginástica com medo de criar músculo e ganhar peso. Dormia 20 horas por dia, não tinha força para caminhar e meu cabelo caía. Às vezes, não tomava aspirina preocupada com a quantidade de caloria. Peguei uma broncopneumonia e achei legal, porque com 40ºC de febre iria emagrecer! Até na hora de escovar os dentes pensava: ‘A pasta de dente é doce, tem caloria. Vou usar só um pouco’. Minha mãe fazia terapias e não percebeu que eu estava anoréxica. Tive gastrite e vomitava espontaneamente quando comia. Os chás provocaram uma úlcera. Fui medicada e curada. Só que passei a ter vontade de comer. Como ainda me preocupava em emagrecer, comia e provocava vômitos. Com 16 anos, virei bulímica e convivi com a doença por cinco meses. Fingia que fazia depilação na perna e me trancava no banheiro para colocar a comida para fora. Só que muitas vezes não conseguia provocar o vômito. Ficava nervosa, agressiva, depressiva, comia chorando de raiva. Meu psiquiatra tornou-se amigo da família, almoçava comigo e não deixava eu correr para o banheiro depois das refeições. Minha mãe passou a me acompanhar em almoços e jantares. Nessa época coloquei na cabeça que queria ficar igual à Carla Perez, com pernão e bundão, e passei a comer. Feliz, freqüentava pagodes com a minha mãe, dava jantares para amigos e saía com eles. Estou com 60 quilos, mas até hoje não me considero livre da doença. Tenho medo porque, se resolver encarar um regime, sei que não vou me permitir emagrecer só um quilo por mês.”
Preferiu não se Identificar-Depoimento de outubro de 2008.
“Sempre fui um pouco acima do peso, nada muito exagerado, mas quando completei 15 anos, os quilinhos que sobravam começaram a me incomodar. Eu queria ser perfeita, ser magra para mim era sinônimo de ser popular e sem perceber comecei a ter sintomas de bulimia.
No início as crises aconteciam esporadicamente, nunca achei que aquela situação poderia me causar algum mal, pois sempre depois do vômito, tomava antiácido e a sensação de mal estar passava.
Até os 19 anos levei uma vida normal e soube conviver muito bem com a bulimia, mas as minhas neuras cresceram e a busca do corpo perfeito aumentou. As crises passaram a ser mais freqüentes e quando dei por mim, todos os dias eu comia exageradamente e vomitava. Nessa época já fazia faculdade e trabalhava, não tinha tempo de freqüentar uma academia e nem de ter uma alimentação mais saudável, por isso eu encontrava nessa compulsão alimentar as soluções dos meus problemas. Ninguém da minha família sabia das minhas dificuldades, apenas algumas amigas conheciam de fato o que eu sofria e sempre me orientavam a procurar ajuda médica. O quadro piorou ainda mais quando, além da bulimia, comecei a ter depressão. Foi quando não agüentei e procurei um psiquiatra. Imediatamente ele comunicou a minha mãe, que achou toda aquela situação absurda. Ela achou que eu estava desocupada e apenas precisava de algumas atividades para preencher o meu tempo. Ficou brava comigo e disse que comer e vomitar era desperdício de comida, que se fosse para fazer isso era melhor eu não comer nada. Ela me proibiu de tomar os remédios que o médico tinha receitado. Nessa fase a situação chegou num ponto extremo, sofria desesperadamente, pois não podia contar com a ajuda da minha mãe e nem com os antidepressivos. Vivi os piores dias da minha vida e decidi mais uma vez procurar apoio médico, comecei a me tratar, mesmo sem a autorização dos meus pais. Quando achei que já estava tratada e bem melhor, comecei a tossir, tossir, sem parar. Mais uma vez busquei ajuda e descobri que de tanto provocar o vômito desenvolvi refluxo e que o ácido gástrico produzido pelo meu estômago estava migrando diretamente para os meus pulmões. De tanto tossir, acabei trincando as costelas. Fiquei inúmeras vezes internada e quase morri, pois por conta disso comecei a sentir muita falta de ar e não conseguia respirar. Muitas meninas acreditam que a bulimia não mata, mas segundo os médicos, o que eu sofri foi uma das conseqüências mais simples que a bulimia provoca. Ficar vomitando todos os dias pode provocar até câncer na laringe e na faringe. Hoje tenho 21 anos e apesar dos quilinhos que ainda sobram, procuro levar uma vida normal. Quando lembro das crises de tosse, desisto de vomitar!”
Carlos Alberto Peixoto é pai de uma jovem que faleceu de anorexia nervosa em 1999.
“Paula se alimentava de cenoura, pepino, melancia e maçã, na qual colocava adoçante artificial. Achava-se gorda e, depois de oito meses nesse regime por conta própria, foi encontrada morta pela minha esposa, enquanto dormia na cama, em 1999. Ela tinha perdido 24 quilos e sofreu uma parada cardíaca em decorrência de uma hipoglicemia (carência de açúcar no sangue). Minha filha morreu de anorexia. Paula tinha dificuldade de relacionamento. Ficava no computador até as 3h da madrugada. Namorava só pela internet. A minha profissão exigiu que eu mudasse de cidade regularmente e acho que isso influenciou para que ela fosse introvertida. Também tinha vergonha do tamanho dos pés (calçava 40), da própria silhueta. Em 1998, ela fez uma cirurgia de redução de mamas. Ficou mais alegre e perdeu um pouco do preconceito. Só que aí iniciou-se num processo de querer emagrecer para ser modelo ou para ser notada pelos rapazes. Vinte dias antes de falecer, lembro da Paula na frente do espelho apertando a pele da cintura e dizendo: ‘Ó, isso aqui ainda tenho de perder’. Três meses antes desse episódio, descobri que ela vomitava o pouco de comida que ingeria. Levei-a a um psiquiatra e ela fez tratamento durante cinco meses. Soube que se tratava de uma doença grave, mas não imaginava que podia causar a morte. A auto-estima de Paula melhorou. Mesmo assim, às vezes ela resistia em tomar os medicamentos. Fato que levou o psiquiatra a propor uma internação. Fui contra e acho que errei. Resolvi acreditar na Paula, que dizia que se propunha a fazer tudo para melhorar caso não fosse internada. Mas não foi o que aconteceu. Minha filha tomava um copo de água e corria para se pesar numa balança que eu tinha em casa. Minha filha era uma jovem bonita. Tinha 1,77 metro de altura, estava no primeiro ano da faculdade de Direito e se foi 15 dias depois de atingir a maioridade.”
Hoje, Carlos Alberto mantém sites (www.aanorexianervosa.blogspot.com; www.aanorexia.net; www.anorexianervosa.blog.terra.com.br) em que informa sobre os distúrbios alimentares e divide sua história com as pessoas.
Por Thaís Araújo